SP na Pele: histórias de mulheres que carregam a cidade tatuada no corpo

Houve um tempo em que tatuagem era coisa de rebeldes e diferentões. Quem tinha, até tentava escondê-las para ir a entrevistas de emprego. Hoje é até mais difícil encontrar quem não tem nenhum desenho na pele, do que quem tem. De chefs de cozinha e jogadores de futebol com braços fechados, a meninas com flores delicadas enfeitando o tornozelo, os motivos que levam a qualquer um se sujeitar à dor e ao prazer de fazer uma tatuagem são os mais diversos possíveis.

Aliás, se você quer irritar alguém, basta perguntar o que a tatuagem dela ‘quer dizer’. Tatuagem não tem obrigatoriamente que querer dizer nada. É um adorno que a pessoa quer carregar sempre com ela, como uma aliança ou um pingente. Tribais, ideogramas, símbolos de culturas distantes, nomes de familiares, cada um escolhe o desenho de acordo com seu momento de vida. Mas uma coisa todas elas tem em comum: cada tatuagem que se faz, existe uma grande história pessoal por trás.

Aqui nós falamos o exclusivamente sobre São Paulo, essa megalópole complexa e absurda, cheia de contrastes e de cultura, onde todos somos protagonistas e anônimos ao mesmo tempo. Uma cidade assim tão única, casa de mais de 12 milhões de pessoas, não poderia deixar de inspirar alguns paulistanos apaixonados a carregar a selva de pedra tatuada. Fomos convidados pela Tegra para criar a websérie ‘SP na Pele‘, para descobrir essas histórias por trás das tatuagens de quem não consegue se desgrudar de São Paulo. Logo, logo teremos dois capítulos no ar. Mas a pesquisa de pessoas e tatuagens rendeu histórias tão incríveis, que resolvemos contar as melhores delas.

Giulia Rosso

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Estilista formada e viciada em skate, a Giulia uniu o útil ao agradável trabalhando como coordenadora de produto na G5 Corp, além de ser responsável pelo desenvolvimento de algumas marcas de skate internacionais e do merchandising da Red Bull. Se você não encontrá-la circulando por Pinheiros na sua Vespa, é provável que ela esteja em casa com seu gato Federico Rosso. Paulistaníssima da gema, ela hoje é uma das poucas do seu círculo de amigos que não só nasceu, mas sempre viveu em São Paulo. E se todo mundo vive uma relação de “odeio te amar e amo te odiar” com a cidade, para ela essa paixão nunca pendeu para o lado de lá. Ela ama São Paulo mesmo nos muitos defeitos. Quando ela começou a viajar e conhecer outros lugares no Brasil e fora, ela valorizou ainda mais as riquezas e a diversidade cultural que encontra aqui. “Até quando eu viajo e volto pela Marginal de carro do aeroporto, eu me sinto em casa. Tipo: ai, cheguei!”, diz. A Giulia já tinha algumas tatuagens no corpo, mas o amor foi tanto que ela teve que incluir no braço o icônico símbolo do Estado de São Paulo, eternizado nas calçadas da cidade. E completa: “Eu torço para o São Paulo também, então foi uma forma sutil de juntar tudo!” Foram dois amores em uma agulhada só.

Sarah Sioli

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Sabe aquela rixa lendária entre cariocas e paulistanos? A Sarah é a prova viva de que isso não existe (ou se existe é coisa de gente chata). Ela saiu da cidade maravilhosa já com 24 anos, para buscar oportunidades de trabalho na terra da garoa e da labuta. “No Rio, para quem trabalha com marketing e publicidade, não existem muitas opções.” Acabou ficando 3 anos, mas foi um período intenso, em que ela conheceu muita gente bacana, aprendeu um monte, passou por empresas que deram uma lustrada no currículo, e ainda conseguiu juntar uma grana para morar fora. Dito e feito. Em 2010, ela se lançou no mundo. Morou em Buenos Aires, Londres, e teve duas temporadas longas em Barcelona. Ela chegou a ficar quase 4 anos sem pisar por aqui. Até que, em abril desse ano ela teve que passar em São Paulo, e percebeu que a cidade está bem mais criativa que muito lugar por aí. “As pessoas estão com sede de mudanças (pelo caos politico e econômico), elas resistem e querem ser agentes de mudança.” A conexão foi tão forte, que a Sarah resolveu tatuar o símbolo do estado no pulso, no dia de pegar o avião de volta para a Espanha. O destino estava traçado: 4 meses depois ela conseguiu um emprego que almejada como gerente de marketing do AirBNB, e ela desembarcou de mala e cuia de volta para ficar. E completa: “Se eu não tivesse passado por aqui antes, nada disso tinha acontecido. Foi a cidade que me permitiu sair da casa dos meus pais pro mundo, por isso tenho muito carinho por SP, pq me deu oportunidades. Também, depois de ter conhecido muitas capitais pelo mundo, percebi que SP é uma das mais criativas e pulsantes que existem.”

Gabriela Pacheco

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Nascida na cidade de São Paulo, na Maternidade de São Paulo, torcedora roxa do São Paulo… impossível ser mais paulistana que a Gabi, jornalista e sócia da Barracuda. Tanto que ela já criou até uma espécie de crachá. Ela já tinha algumas tatuagens pelo corpo, mas ela queria alguma coisa que fincasse seus pés na terra natal para sempre. E também tinha o desejo de ter uma tatuagem do Tinico, tatuador conhecido por desenhos geométricos super elaborados e cheios de detalhes. Juntou a fome e a vontade de comer. Ela lançou o desafio para ele desenvolver em cima do padrão das calçadas, e ele teve um trabalhão, mas o resultado ficou incrível. “Quando vou para outro estado, sempre falam: ‘olha ai a paulistana'”, se diverte. Já teve até gente que confundiu e achou que era o calçadão de Copacabana. Hoje ela acha que a calçada já não chama tanto a atenção no meio de tantos outros desenhos que fez. Mas o que importa é que para a paulistaníssima Gabi nunca mais a cidade do coração sai de perto.

Louie Martins

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Tatuar a tua cidade do coração é fácil. Mas como fazer quando teu coração vive dividido entre dois lugares? A Louie nasceu no Rio, e veio para São Paulo em 2007. Voltou para o Rio em 2010, mas acabou retornando para Sampa em 2014. Hoje ela se diz feliz aqui: “Meu estilo de vida é São Paulo. O Rio está cada vez mais caótico e complicado, na minha visão, e estabeleci uma vida aqui que me fez tão bem que não sinto necessidade nenhuma de voltar para lá.” Mas, querendo ou não, seu amor pelas duas cidades não permite que seu coração seja 100% só uma delas. Aqui está a vida da Louie, lá ficaram a família e as raízes. Então, assim que ela voltou para o Rio, ela decidiu que teria cada cidade em um braço. O braço esquerdo recebeu o desenho geométrico das calçadas de São Paulo, e o direito as ondas da calçada de Copacabana, no Rio. Mas à primeira vista, você pode até não reconhecer os desenhos, porque eles são um pouco distorcidos, trazendo o ponto de vista de quem anda pelas calçadas, em um ângulo meio diagonal de baixo para cima. Tudo freehand, direto das mãos do tatuador. E se, há dez anos, a Louie veio para São Paulo a trabalho, a convite de uma agência paulista, hoje ela tem muito mais motivos para ficar: está casada há 2 anos e está grávida do primeiro filho. Ela conta: “Hoje, São paulo, mais do que a cidade que eu moro e trabalho, é a cidade que virou meu lar mesmo. É onde quero criar minha prole. O lugar que sinto falta quando viajo. Nunca senti falta do Rio quando eu viajava.”

Rafaela Breviglieri

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“Amor, humor”. Esse deve ser o poema mais curto do mundo. E era justamente esse poema que a Rafaela tinha tatuado no corpo. O autor é o paulistano Oswaldo de Andrade. A Rafa é dessas que acha que cada tattoo tem que ter um significado muito forte. Tinha uma que ela queria fazer já há muito tempo, e a mudança de agência foi a desculpa perfeita para marcar essa nova fase com uma marca nova na pele. E a segunda tatuagem tinha que ser uma homenagem à cidade: “Sou da zona norte, então quando toca ‘Trem das Onze’ rola aquele arrepio, sem contar a minha escola de samba do coração Unidos de Vila Maria, bairro onde nasci e vivo até hoje, e a qual faço questão de levar os amigos todos para conhecer.” A inspiração veio de um antigo colega de agência, que tinha tatuado o mapa de SP na canela e a calçada no braço. Ela perguntou se ele, que já morava fora do Brasil, se incomodaria se ela usasse as dele como referência. Ele não só se animou, como mandou foto de uma terceira que tinha, com a frase em latim Non Ducor Duco (Não sou conduzido, conduzo), que está no brasão oficial da cidade. A Rafa não se conteve. Juntou o signo de câncer com o ascendente em Peixes, o amor pelo time do São Paulo e pelos desfiles da Unidos da Vila Maria, toda sua impulsividade, e fez logo as duas, uma em cada braço. Agora está marcado para sempre esse amor de raiz. “Eu amo minha cidade. São Paulo pra mim é o melhor lugar do mundo e só saio daqui se for pra trabalhar fora do Brasil ou ter alguma experiência diferentona.”, conclui.

Mariana Belmont

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Quando pensamos em paulistanos da gema, vem sempre aquele estereótipo da Moóca, com sotaque levemente italiano, né meu!? A Mariana é o contrário disso. Ela nasceu e cresceu em São Paulo, mas em uma realidade bem diferente da que estamos acostumados. Ela vem de Parelheiros, no extremo sul do município, e a única área rural da cidade. Mas também é uma área que sofre com desmatamento e ocupações irregulares. Ao longo de sua carreira de jornalista, a Mariana acabou partindo para a área de mobilização e comunicação para políticas públicas, e se especializou em áreas protegidas. Atuou como assessora de comunicação da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente e na Secretaria de Habitação, ambos na Prefeitura de São Paulo. Foi coordenadora de comunicação do Mosaico Bocaina de Áreas Protegidas, e participou ativamente da criação das duas áreas de proteção ambiental da região de Parelheiros, Grajaú e Ilha do Bororé – APA Capivari-Monos e Bororé-Colônia. Suas duas primeiras tatuagens já indicavam sua vocação: uma árvore e a palavra ‘veracidade’. Mas não era suficiente, precisava marcar também esse vínculo com a sua terra. “Por causa da ligação muito forte com a região, por estar totalmente envolvida com a construção, por trabalhar com o tema, não só lá, mas hoje em outros lugares do Brasil… e principalmente, pela ligação e conexão com meu território, onde nasci, cresci, fiz e faço coisas. E pela importância desse lugar pra cidade e afins.” Hoje ela mostra orgulhosa a tatuagem do mapa de um recorte das duas APAs, mais o limite da Terra Indígena Guarani, que abrange as aldeias guaranis Tenondé Porã, Krukutu e Kalipty, as três em Parelheiros. Isso além de escrever para o Blog de Áreas Protegidas no HuffPost Brasil, e participar do Movimento Imargem, que trabalha pela democratização da arte, meio ambiente e direito à cidade, fazendo parte da Rede Jornalistas das Periferias de São Paulo.

Jaqueline Arashida

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A Jaqueline já morou em tudo que é canto de São Paulo. Nasceu em Santo André, mas cresceu circulando entre o ABC, Sapopemba e o Jardim Aeroporto. Na adolescência, a família resolveu fugir do caos, e mudou de vez para o interior. Mas era o caos que a Jaqueline mais gostava, e a vontade de voltar para a metrópole falou mais alto. Ainda na faculdade, ela só procurava estágio em São Paulo, porque ela tinha a meta de voltar a qualquer custo. “Consegui muitas entrevistas e, todas as vezes que ía, me sentava em qualquer canto pela São Bento e pensava: aqui é meu lugar.”, relata. Aos 20 anos, voltou para a Pauliceia, e morou em Perdizes, no Centro e no Paraíso. Frequentava os bairros mais movimentados, os lugares mais cheios de pessoas, as festas na rua. Mas além das conversas de bar regadas a cerveja e do colorido do street art, ela também gosta de ficar sozinha, do barulho do mar, do silêncio. E foi em um desses momentos que ela percebeu que tinha que carregar o caos em si: “Fiquei muito introspectiva e refleti muito sobre todas as coisas que estavam acontecendo na minha vida. Deixar SP em mim foi uma decisão de tentar me manter sempre forte. Hoje ela representa um pedaço de mim. A minha intensidade, imagino.” A tatuagem não poderia ser mais explícita – o MASP, a Catedral da Sé e a Ponte Estaiada, juntas (na foto que ilustra o post). A Jaqueline mora há um ano e meio em Lisboa, e confessa que nunca esperou ter a oportunidade de aprender a amar outro lugar além de São Paulo.

Na série SP na Pele, trazemos algumas pessoas que não só marcaram SP na pele, mas marcam essa cidade com sua presença diariamente. Queremos falar com quem vive intensamente São Paulo. E a Tegra que aproveitar o lançamento do empreendimento PIN em uma das regiões que mais amamos, Pinheiros, para fazer um convite: more onde você vive!

 

Renato Salles

Paulistano da gema e da clara, conhece o mapa de São Paulo melhor que muito taxista (mas foge do trânsito como da cruz!)

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