Bate-Volta: Ilha do Cardoso, o paraíso intocado de São Paulo

Uma ilha quase intocada pelo homem, onde mais de 90% de sua área é coberta por floresta nativa original, as praias virgens vivem vazias, e os poucos e pequenos vilarejos são habitados por descendentes dos índios. Parece que estamos falando de algum rincão do Amazonas, mas esse lugar fica em São Paulo mesmo. É até difícil de imaginar que exista no estado mais populoso do país um lugar como a Ilha do Cardoso.

Os 15 mil hectares da ilha fazem parte do Parque Estadual da Ilha do Cardoso, criado em 1962. Por fazer parte de uma área de preservação, o acesso é controlado, não existe rede de luz elétrica, e não entram carros. Essas características fazem do Cardoso um destino único, por ser talvez o mais rústico, e por manter a fauna e a flora mais exuberantes da região, declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO.

Igreja no núcleo Marujá - Foto:
Igreja no núcleo Marujá – Foto: Manufatura de Ideias

Porém, quando se fala em um lugar rústico, isso não quer dizer em nada monótono. Na Ilha do Cardoso, as praias deslumbrantes dividem o dia do visitante com trilhas, cachoeiras, piscinas naturais, dunas, e a hospitalidade dos caiçaras, que tem muito a ensinar de sua cultura e tradições. Dá para acreditar que isso tudo está tão perto?

Como Chegar

A Ilha do Cardoso fica na divisa de São Paulo com o Paraná, bem no meio de uma série de parques estaduais. Então a única cidade próxima, usada como ponto de acesso, é Cananéia.

O caminho até Cananéia, saindo de São Paulo, tem 245km, e demora cerca de 3h30. Boa parte do trajeto é feito pela Rod. Régis Bittencourt (BR-116). Passando Registro, pegue a saída 464 para a SP-226, com indicação para Pariquera Açu, Iguape e Cananéia. Siga pela estrada por 27km até a entrada da Estrada Pref. José Herculano de Oliveira Rosa na rotatória, e por ela até Cananeia. É possível também seguir em frente, passando por Itapintangui, mas por esse caminho você só acessa Cananéia por balsa, o que pode causar atrasos.

Chegando na cidade, é hora de achar um estacionamento para o teu EcoSport, porque no resto do caminho não tem rodas. Do pier saem barcos para Ilha Comprida, em frente e para a Ilha do Cardoso. Para esta, existem dois tipos de embarcações disponíveis. As escunas são mais baratas, mas bem mais demoradas. O trajeto até Marujá (o vilarejo mais procurado) pode levar mais de 3 horas. Elas ainda tem o incovenente de sairem só em horários determinados, geralmente pela manhã.

A outra opção são os speedboats, que ficam parados no pier esperando encher com visitantes para sair (geralmente 4). O custo é mais alto, mas você chega em menos de 1 hora. Os preços variam bastante: pela quantidade de gente no barco, pelo núcleo de destino e pela época do ano. Mas fique esperto que vale mais a pena pagar o barco já dentro dele, para não ter que pagar a comissão dos vendedores em terra. Para informações sobre a balsa, consulte a Dersa.

Onde ficar

Respeite à comunidade: Foto:
Respeite à comunidade: Foto: Manufatura de Ideias

Os moradores da ilha vivem agrupados em núcleos, que se espalham por diversos pontos. O principal é Marujá, por ser o maior, ser bem localizado, e com melhor infraestrutura para visitantes. E por melhor, não espere nada realmente urbanizado. Ruas de areia, luz só por gerador até as 23h, nada de celular e poucas opções de hospedagem. Em compensação, Marujá é o único núcleo com igreja, posto de saúde e telefone público.

Por isso, a Ilha do Cardoso é um dos lugares ideais para carregar seu Hotel EcoSport, e passar as noites em campings, que tem mais opções. Atenção: o regulamento do Parque não permite o acampamento selvagem. São 37 pontos de camping, sendo que alguns oferecem alojamento rústico dentro de casa. Aqui listamos algumas boas opções, mas esse link tem o telefone de vários deles.

Pousada Camping Luz do Sol
Endereço: Núcleo do Marujá – Ilha do Cardoso
Telefone: (13) 3852-1210

Recanto do Marujá
Endereço: Rua Paulo Porphirio Paiva, 129 – Bairro Rocio
Telefone: (13) 3852-1182 / 3851-1488

Associação de Moradores
Telefone: (13) 3851-1163 / 3851-1161

Onde comer

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Vista para o mar – Foto: Rodrigo Accurcio

Assim como na hospedagem, a comida também é algo que segue o estilo de vida caiçara, bem simples e natural. Os restaurantes nada mais são do que espaços nas casas dos locais onde são servidos os pratos do dia, com o que tem disponível na época. Isso quer dizer porções bem servidas, peixes fresquíssimos, preços amigáveis e zero frescura.

Na maioria deles, você pode optar pelo PF, ou então pagar para comer à vontade no buffet (um pouco mais caro). E não esqueça o dinheiro vivo, porque cartão não rola em quase toda a ilha. Outra coisa para se levar em conta é que os dias se passam geralmente em passeios. Então é sempre bom levar um estoque de lanches e frutas para carregar na mochila para fazer as vezes de almoço.

A Pousada da Débora é conhecida pelo café-da-manhã, bem variado. Por receber quem não está hospedado, acaba enchendo com gente de toda a vila. Também serve crepes, doces, sucos, sanduíches, pastéis, e mais, ao longo de todo o dia.

Pousada da Débora
Endereço: Núcleo Marujá
Telefone: (13) 3852-1205 / 3851-3383 / 9 8132-5346

O Recanto do Marujá tem um dos cardápios mais variados e saborosos da vila. Ali você encontra receitas feitas com camarão como estrogonofe e moqueca. Também é um ótimo lugar para ouvir as histórias de pescador do dono, o Beto.

Recanto do Marujá
Endereço: Rua Paulo Porphirio Paiva, 129 – Bairro Rocio
Telefone: (13) 3852-1182 / 3851-1488

Do outro lado da ilha, no núcleo Perequê, a casinha de bambu do Recanto dos Golfinhos tem uma vista privilegiada e um buffet bem gostoso. Também é um ótimo lugar para experimentar as porções, que vão da básica batata frita a camarões fritos e ostras. Ah, e é um dos poucos que aceita cartão.

Recanto dos Golfinhos
Endereço: Rua Frederico Trudes da Veiga, 989 – Núcleo Perequê
Telefone: (13) 9 8139-2273

Onde petiscar

Comunidade da Enseada da Baleia - Foto:
Comunidade da Enseada da Baleia – Foto: Manufatura de Ideias

Durante o dia, todo mundo está em trilhas e praias. À noite, a energia elétrica dura até certa hora, e tem que ser racionada. Então bar é uma coisa difícil de se achar na Ilha do Cardoso. Mas isso não quer dizer que não tem festa. Ao lado do Recando do Marujá fica um animado forró, que dura o dia todo e já virou instituição da ilha. Espalhados pela vila, alguns outros lugares também tem bailes que vão até tarde. Antes da escuridão chegar, é impossível resistir a um rasta-pé coladinho para encerrar o dia.

O que fazer

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Praia do Marujá – Foto: Vitor Motomura

A vida na Ilha do Cardoso tem o ritmo das comunidades de moradores, co forte influência indígena. Parte da experiência é conhecer seus costumes e tradições, e aprender com eles sobre respeito e harmonia com a natureza. Só isso já vale a viagem. Os locais são super prestativos, e muitos deles se oferecem como guias para fazer os passeios mais diversos por lá.

Mas com um parque tão exuberante como esse, nada melhor que se embrenhar na mata para descobrir cada canto.

Bom, quando o assunto é natureza, prevenção é essencial. Alguns dos lugares mais bonitos da ilha vão te tomar o dia todo em trilhas, e você não quer perder o dia por conta de uma picada maldita. Então a tua mochila tem que ter: repelente, protetor, toalha, garrafa de água, chapéu, óculos escuros, um bom tênis e talvez uma calça leve para não ficar todo pinicando… o kit básico. Pegou tudo? Então pé na trilha!

Trilha
Trilha no mangue – Foto: Raquel Abe

Para começar, Marujá fica no começo da restinga que forma parte da ilha. Nela, é possível sair dos manguezais do Canal do Ararapira e cruzar rapidinho para a Praia do Marujá, do lado do oceano. Ela tem uma faixa de areia longa e praticamente deserta, e olha que é uma das mais movimentadas.

Seguindo por trilhas a partir da ponta norte de Marujá, as praias vão ficando mais isoladas e mais lindas. O caminho conta com uma travessia de um costão rochoso que exige algum preparo físico, mas o esforço é compensado logo. As praias seguintes são a Praia da Lage, Praia de Foles e Foles Pequeno, e a Praia de Cambriú. Essa última, por ser uma baía, tem águas calmas e transparentes, ideais para mergulho.

Parque Estadual - Foto:
Parque Estadual – Foto: Manufatura de Ideias

Saindo por uma trilha da ponta da Praia da Lage, você pode passar pela mata fechada até chegar no meio do percurso do Rio Cambriú, onde se formam as Piscinas da Lage. A água doce do rio tem aí poços de água verde esmeralda, impossíves de resistir. Mas todas essas trilhas devem ser feitas com acompanhamento de guia.

Na direção oposta, ao sul de Marujá, a restinga se alonga por cerca de 15km até o Pontal da Praia, no extremo da ilha. É um passeio gostoso para se fazer caminhando (muito!), e por isso muita gente opta por alugar uma bike na vila e fazer pedalando. A vista do encontro do canal com o mar é deslumbrante. Só fique esperto que quando a maré sobe, você é obrigado a enfrentar a areia fofa, e daí haja perna para aguentar.

Se você cansou de caminhar, que tal um passeio de barco? Saindo da vila, em 20 minutos de lancha se chega a uma trilha pequena (só 20 minutos essa) que leva à Cachoeira Grande, com 11 metros de queda. Ela é ótima para se refrescar na água gelada nos dias mais quentes, e para fazer um passeio curto, sem tomar o dia todo.

Trapandé. Lá fica a Sede do Parque, e também existem trilhas que levam às praias de Itacuruçá (ou Pereirinha) e Ipanema, o Poço das Antas e a Cachoeira do Ipanema. Essa baía também é o lugar ideal para ver golfinhos cinza, que sempre dão as caras. Mas por toda ilha, a fauna é um espetáculo à parte: papagaios, veados, cobras, jacarés, bugios, e até pinguins!

No fim do dia, além do agito no forró, um programa imperdível é dar uma volta pela praia na escuridão da noite. A falta de luz elétrica oferece um céu cintilante de estrelas difícil de ver no Sudeste, e na água é possível encontrar algas bioluminescentes. Só não esqueça de levar uma lanterna para não se perder na volta.

* Foto destaque: Yuri Curvinel Ribeiro

Jo Machado

O Jo é um amante curioso, fiel e sem firulas da cidade. Adora vê-la fluir. Ver suas ruas cheias de vida e histórias. Fica feliz com os causos da cidade de outrora e gostaria de ter vivido por aqui também em outras épocas. Ama a diversidade da cidade, com ênfase na vasta gastronomia presente por aqui. Ele lambe os beiços só de pensar, acredite.

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