Di Cavalcanti ganha grande retrospectiva na Pinacoteca

Começou no último dia 2 a mostra ‘No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos‘, na Pinacoteca do Estado. É a maior retrospectiva do artista feita desde 1971, com mais de 200 obras de acervos de museus e coleções particulares de vários países do mundo, sendo então uma chance única de ver ao vivo algumas das telas mais importantes dos seus mais de 60 anos de carreira. Além disso, a exposição traz ainda trabalhos pouco conhecidos dele, como as ilustrações e charges para revistas, livros e até mesmo capas de discos.

Cena de Carnaval pintada por Di Cavalcanti
Cena de Carnaval pintada por Di Cavalcanti

O título da mostra carrega dois vieses importantes da obra de Emiliano Di Cavalcanti. O primeiro é referente aos temas retratados em seu trabalho. Na virada do século 20, a população urbana passou a crescer cada vez mais rápido, fazendo as cidades se expandirem rapidamente, e criando um novo significado para os subúrbios – antes reservados à elite. E foi nesse lado das cidades, entre os pobres e marginalizados, que Di Cavalcanti encontrou a inspiração para sua arte. Foi o primeiro artista brasileiro a retratar o negro não como um excluído vitimizado pela hierarquia social, como fazia Portinari, mas sim na trivialidade de seu dia-a-dia.

O livro 'Fantoches da Meia Noite' original está exposto na mesa.
O livro ‘Fantoches da Meia Noite’ original está exposto na mesa.

Trabalhadores comuns, sambistas, prostitutas, os malandros, os bares, a zona portuária, o mangue, os morros cariocas, as rodas de samba e as festas populares, seu tema era sempre aquele Brasil que não aparecia nos salões de arte da aristocracia deslumbrada com a Europa. Di Cavalcanti não fazia julgamentos dessa periferia, pelo contrário. Exaltava a vida e as cores de gente anônima em seus poucos momentos de descanso ou de festa. Fazia uma crônica do baixo-meretrício ao estilo de Toulouse-Lautrec nos bordéis de Paris do fim do século 19. O tema recorrente da mulata, que hoje é tratado como racismo irascível, tinha em sua pintura uma ideia de cordialidade, de aceitação da democracia e do ideário brasileiros a partir da miscigenação.

As charges de forte conteúdo político continuam atuais.
As charges de forte conteúdo político continuam atuais.

O outro aspecto relevante do trabalho de Di Cavalcanti revelado pelo título da mostra é da sua busca por uma identidade da arte brasileira, colocada sempre em posição de atraso em relação aos movimentos modernos da Europa do começo do século 20. Mesmo antes da tão celebrada Semana de 22 e sua antropofagia, ele já tentava fixar uma ideia de “arte moderna e brasileira”, ainda que incorporasse elementos do cubismo de Picasso e Braque, do fauvismo de Matisse, e outros estilos que trouxe de sua viagem a Paris em meados da década de 20 em seus trabalhos. Flertou com o muralismo mexicano e a pintura metafísica italiana. Mas seguiu firme em seus ideais até com a chegada implacável do abstracionismo nos anos 40, e manteve sua figuração pictórica até o fim de sua vida em 1976.

A tela 'Samba', de 1927, só foi apresentada no Brasil em 2016.
A tela ‘Samba’, de 1927, só foi apresentada no Brasil em 2016.

Na comemoração dos 120 anos de nascimento de Di Cavalcanti, a exposição da Pinacoteca se espalha em 7 salas que fazem recortes da sua obra tão extensa. Se em uma sala vemos sequências longas de desenhos com pesada crítica social no melhor estilo charge de jornal, em outra vemos telas enormes onde os vários estilos explorados por ele são colocadas lado a lado. Algumas telas famosas do artista estão lá, como ‘5 Moças de Guaratinguetá’, ‘Devaneio’ e ‘Cena de Rua’. Outras estavam a tanto tempo em coleções particulares que mal se sabia da existência delas. É o caso da lindíssima ‘Samba’, que inclusive teve sua autenticidade confirmada pela filha do artista.

Devaneio, 1927.
Devaneio, 1927.

A exposição apresentada pelo Banco Bradesco fica em cartaz até 22 de janeiro de 2018, então não tem desculpa de falta de tempo para não ver.

No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos
Pinacoteca do Estado de São Paulo – Praça da Luz, 2.
De quarta a segunda, das 10h às 17h30
Ingressos: $6 (inteira) e $3 (meia). Grátis aos sábados.

Renato Salles

Paulistano da gema e da clara, conhece o mapa de São Paulo melhor que muito taxista (mas foge do trânsito como da cruz!)

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