Sobre nomes de ruas e a falta do que fazer dos políticos

Já aviso. Esse é um post de revolta.

Você deve ter ouvido – e se não ouviu, já te dou aqui o abaixo-assinado para se revoltar junto – mas um desocupado que se diz deputado resolveu que seria uma ótima ideia mudar o nome da estação de metrô Vila Mariana para Enéas Tognini, em homenagem a um pastor batista que morreu ano passado. Nada contra o senhor, Sr. Enéas. O senhor deve ter sido uma pessoa bacana. Mas isso não quer dizer que o senhor merece ser lembrado pelas milhares de pessoas que passam pela estação todos os dias, que mal sabem pronunciar teu nome. Isso sem falar no descaso com a história da cidade, no gasto desnecessário com a mudança de sinalização de toda a rede do metrô, e – desculpem o português – na falta de sarna para se coçar desse boçal desse deputado.

Outro dia, estava eu andando pela Marginal Pinheiros, e vi algumas placas indicando a Ponte Edson de Godoy Bueno. Olha, eu nasci em São Paulo, passo pela Marginal com muita frequência, e tenho certeza que não conheço nem a ponte, nem esse tal aí. Sorte que eu não dependia dela no meu caminho, senão era capaz que eu a teria perdido. Depois que fui descobrir – fazendo uma bela pesquisa na internet, porque não é que a Prefeitura se preocupou em avisar – que se tratava da antiga (e ainda nova) Ponte Itapaiuna. O tal do Edson, achei aqui, é o fundador da Amil. De novo, respeito aqui a família do Edson, mas convenhamos que ele não foi nenhuma Madre Teresa para a cidade a ponto de ter seu nome estampado no mapa da cidade. Pode perguntar para seus amigos que tem convênio da Amil. Aposto que a maioria deles seria bem menos lisonjeiro se pudesse escolher a homenagem.

Leave Vila Mariana alone!
Leave Vila Mariana alone!

Tem uma coisa que sempre me deixa encantado em Buenos Aires, mais do que o tal charme europeu. Eu realmente adoro ver o nome das ruas da cidade. Muitos curtos, em uma mistura deliciosa de castelhano e línguas indígenas, com sons lúdicos de divertidos. Rivadavia, Pueyrredón, Riobamba, Ayacucho. Mesmo as ruas com nomes em espanhol são bem curtinhas e fáceis, e poucas tem nomes longos de personalidades célebres da história do país (e não qualquer Zé que foi amigo de algum ex-prefeito). Eu fico triste porque nós temos não só a já rica língua portuguesa para trabalhar, mas também as infinitas opções que o tupi-guarani oferece. Vai falar que nomes como Ibirapuera, Tabatingüera, Guarapiranga ou Guaianases não são muito mais interessantes e sonoros que um nome de um fulano qualquer?

Fora que, para piorar, a cidade é tão multicultural, que aparecem uns nomezinhos doídos de entender e escrever. Eu tinha uma amiga de escola que morava na Rua Dr. Chibata Myiakoshi. Pensa o quanto a molecada não achava motivo para zoar com isso. E imagina só como é para os coitados que moram na Av. Yervant Kissajikian quando eles tem que dar o endereço para um atendente de telemarketing. Sinceramente, eu acho muito mais bacana o nome das ruas do Jardim Natal, onde elas são chamadas de uma fruta seguidos de Natal. Fácil assim: Morango Natal, Manga Natal, Banana Natal, e assim por diante. Não tem erro!

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‘Meu voo sai lá do Deputado Freitas Nobre.’ Cê Jura???

Em São Paulo mesmo temos um monte de bairros que tem ruas com nomes curtos, práticos, e que homenageiam coisas e não pessoas. Moema recebeu nomes de pássaros e índios. Os Jardins são quase um mapa com nomes de países da América e Europa. Higienópolis usou os estados brasileiros, enquanto o Brooklin usou os estados americanos. Todos esses nomes são acessíveis, de fácil reconhecimento pelos cidadãos. Sabe por que não tem um Jardim Alemanha em São Paulo com o nome dos estados germânicos? Porque existiria a Rua Mecklemburgo-Pomerânia e a Alameda Renânia do Norte-Vestfália. Não rola. Se os políticos precisam de mais criatividade para achar temas para nomear as ruas, eu posso ajudar com alguns palpites: cores (Rua Cinza – o prefeito ia adorar), super-heróis (Av. Batman, Viaduto Mulher Maravilha), bebidas (Travessa Vodka, Largo do Gim, Ponte Catuaba Selvagem), e até usar os quatro Telletubies. Tema não falta.

Mas não dá para chorar sobre o leite derramado, e o que está feito está. O que podemos fazer é ficar de olho nesse bando de malandro do nosso Legislativo para não continuar com essa bandalheira. Hoje corre não só a lei para mudar o nome da Estação Vila Mariana, como também um outro que já foi aprovado para mudar o nome do Aeroporto de Congonhas. E adivinha o nome de quem eles querem dar? De um deputado, claro. Alguém aí por acaso já ouviu falar no Sr. Deputado Freitas Nobre e suas grandes realizações? É ou não é de doer?

*Foto do destaque: Prefeitura de São Paulo


Update: conforme nos alertou o leitor Antonio Luis, essa proposta de mudar o nome da Estação Vila Mariana, do deputado estadual – e filho do pastor neopentecostal R. R. Soares – André Soares (DEM),  foi vetada pelo Governador Geraldo Alckmin, como informado por essa matéria. De qualquer forma, a crítica ao esforço empreendido por políticos a causas próprias pouco relevantes ao cidadão se mantém, e cabe a nós eleitores ficar de olho.

Renato Salles

Paulistano da gema e da clara, conhece o mapa de São Paulo melhor que muito taxista (mas foge do trânsito como da cruz!)

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