Bate-volta: São Thomé das Letras, a cidade mais mística do Brasil

São só cerca de 6 mil habitantes, um vilarejo muito rústico rodeado de montanhas e estradinhas de terra, em um rincão escondido da Serra da Mantiqueira mineira. Mesmo assim, a pequena São Thomé das Letras é quase um ponto de peregrinação para pessoas em busca de um estilo de vida mais simples, do contato com a natureza exuberante e, principalmente, muito misticismo.
O nome da cidade vem de uma lenda do século 18. Nela, o escravo fugitivo João Antão teria encontrado em uma gruta uma imagem de São Tomé junto com uma carta escrita em português perfeito. Ao entregá-la ao seu senhor, este lhe concedeu alforria, e ainda ordenou a construção da Igreja Matriz, que domina até hoje a praça central. A região foi, por décadas, grande extratora da famosa pedra mineira, chamada aqui de, claro, São Tomé. A história é tão marcante que até hoje a arquitetura local é dominada pelas casinhas revestidas na pedra, que acabaram tombadas em 1996 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais.

Vista da Igreja São Thomé das Letras - foto: Renato Salles
Vista da Igreja São Thomé das Letras – foto: Renato Salles

Por aqui não se encontra luxo, mas em troca a cidade oferece muita arte, hospitalidade e um céu estrelado de tirar o fôlego. Entre histórias de aparições de ovnis e túneis misteriosos, quem chega a São Thomé não consegue fugir da aura hippie que parece não mudar desde os anos 70. Durante o dia, os visitantes se ocupam com as trilhas e cachoeiras, grutas e passeios no entorno da cidade. Ao cair da tarde, o programa gira em torno de restaurantes com farta comida mineira, muitas lojinhas de artesanato, e bares meio improvisados de rock com música ao vivo. Pode se preparar porque vai tocar Raul!

COMO CHEGAR

Saindo de São Paulo, o caminho até São Thomé tem quase 360km, mas pode contar aí com pelo menos 4h30 de estrada para chegar. O trajeto é quase todo pela Rodovia Fernão Dias, que tem ótimas condições. Na saída 753A, siga em direção a Três Corações pela MG-862, que corta da cidade. Passando por ela, a estrada asfaltada acaba, e o resto do caminho é por terra. As condições desse trecho final são boas, mas a velocidade fica bem reduzida por esses 40km finais.

As fachadas das casas de pedra estão por todo lado - foto: Renato Salles
As fachadas das casas de pedra estão por todo lado – foto: Renato Salles

QUANDO IR

São Thomé das Letras fica há mais de 1400m de altitude, o que a coloca entre as 5 cidades mais altas do Brasil. Por conta disso, o clima é relativamente ameno, e as noites são sempre frias, mesmo no verão. Nessa época, os dias podem ser quentes, o que é muito bom para aproveitar as cachoeiras. Mas também é nessa época que mais chove. A estação seca é o inverno, e o auge do movimento acontece entre julho e agosto.
Os fins de semana costumam ser tranquilos, e visitar a cidade não requer tanto planejamento prévio. Os feriados prolongados costumam ser mais agitados, e você vai encontrar restaurantes e bares cheios. O auge do movimento é em agosto, geralmente no terceiro fim de semana, quando acontece a Festa de Agosto, ou Festa da Colheita, que teve origem em meados do século 19. Nos últimos anos, a festa recebeu shows de artistas do calibre de Zeca Baleiro, Milton Nascimento, Zé Ramalho, Alceu Valença e Nando Reis.

Cruzeiro de São Thomé das Letras - foto: Renato Salles
Cruzeiro de São Thomé das Letras – foto: Renato Salles

ONDE COMER

Na terra da panela de pedra, vai ser difícil fugir da boa e tradicional comida mineira. E pode escrever que você vai comer muito! Todos os restaurantes, mesmo os mais caros, tem atendimento caseiro, e muita fartura nos pratos. A maioria deles é grande suficiente para se dividir, o que faz os preços ficarem bem convidativos. E alguns funcionam com self-service, colocando os vários panelões cheios à disposição para você se servir à vontade.
É o caso do Restaurante da Sinhá. Ele fica em um casarão todo de pedra, como manda o figurino, e a decoração é toda feita com objetos antigos da roça. O buffet tem desde uma farta seleção de saladas e legumes frescos até os panelões enormes de feijoada de primeira sobre o fogão a lenha. Quem quiser, ainda pode optar pelas opções à la carte. Se conseguir não deixe de trocar um dedo de prosa com a D. Lucila, que comanda o lugar, para descobrir alguns dos causos mais interessantes da cidade.
Restaurante da Sinhá
Rua Capitao Pedro Jose Martins 31
(35) 3237-1348
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Um dos restaurantes mais conhecidos de São Thomé é, sem dúvida, O Alquimista. Tanto que ele já virou até uma pequena rede, com 3 estabelecimentos espalhados pela cidade, incluindo o Cantina e o Praça. Esse último é o mais fácil de achar, pois fica praticamente em frente à Praça da Matriz. Construído com um casarão colonial, tem um salão grande, mas costuma ficar cheio e aí o atendimento se enrola um pouco. Os pratos individuais são grandes, e dá para dividir. O cardápio das três unidades é grande, e varia um pouco entre eles.
O Alquimista
Rua Capitão Pedro José Martins, 7
(35) 3237-1203
O Alquimista Praça
Praça Barão de Alfenas 60
O Alquimista Cantina
Rua Capitão Pedro José Martins, 80
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Com o friozinho que envolve a cidade todas as noites, nada melhor que uma bela pizza, com muito queijo derretido. Mas a receita da redonda que virou a marca de São Thomé tem um quê bem mineiro: ela é assada na pedra sabão. Muitos restaurantes incluíram a pizza nos seus menus, mas as melhores você encontra na Ser Criativo Pizzaria. Eles começaram como um restaurante vegetariano, para suprir a necessidade de quem não encara a comida mineira tradicional, mas suas pizzas fizeram tanto sucesso que resolveram se dedicar.
Ser Criativo Pizzaria
Praça Getúlio Vargas, 18
(35) 3237-1266
Quem cansar de tanta comilança, e quiser algo mais simples na refeição, o Thomé Café é uma boa pedida. Ao invés dos pratões, aqui é um lugar para comidinhas. Caldos, sanduíches, salgados formam o menu, incluindo até opções veganas, como o hambúrguer de grão de bico. À noite às vezes tem música ao vivo, e como fica aberto até mais tarde, pode salvar os esfomeados da madrugada.
Thomé Café
Praça Barão de Alfenas 33
(35) 99120-0139

Vista da Pirâmide de Bruxa - foto: Renato Salles
Vista da Pirâmide de Bruxa – foto: Renato Salles

ONDE CURTIR MÚSICA

Para uma cidade tão pequenininha e escondida, São Thomé tem uma noite curiosamente agitada. Mas não pense que vai encontrar baladas superproduzidas. A noite aqui é animada por pequenos bares, que oferecem shows de bandas nostálgicas de rock, e o melhor a fazer é entrar e sair conforme a vontade. Todo segundo sábado do mês acontece o “Pôr do Rock”, com uma banda de rock tocando na pirâmide a partir das 15h, com um cenário de filme ao redor.
Mas tem para outros gostos. Além do rock, ainda existem lugares dedicados ao forró, e você sempre encontra grupos fazendo rodas de violão na praça central e no Morro do Cruzeiro.
Em um espaço realmente reduzido, com só 6 mesas, o Empório consegue ser um restaurante, um bar e uma mini casa de shows, com Jimi Hendrix e Janis Joplin nas portas dos banheiros. Ótimo lugar para quem quer comer bem ou só petiscar, esticar para uns drinks, e ainda pegar um show de blues verdadeiro, sem embromation.
Empório
Praça Barão de Alfenas 180
(35) 99940-7507
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O Caverna Pub tem uma proposta parecida, mas aqui o som é mais eclético e o tema principal é de quadrinhos de heróis. As mesas mais disputadas são as que ficam na calçada. Os preços são um pouco mais altos, e o cardápio tem foco na comida de boteco mesmo. Mas é um bom lugar para esticar a noite jogando conversa fora com os amigos.
Caverna Pub
Praça Barão de Alfenas 44
(35) 99844-4879
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O QUE FAZER

É impossível conhecer as belezas da região de São Thomé sem se envolver nas histórias e lendas que rondam esses lugares. Diz-se que a cidade fica em um dos sete chacras do mundo, e que por isso está carregada de energia. Talvez por isso tanta gente venha atrás de descobertas místicas, ou para desvendar mistérios nunca solucionados.
O caso mais conhecido é sobre o túnel que supostamente ligaria a cidade a Macchu Picchu, no Peru. Segundo a lenda, os Incas teriam localizado a região de São Thomé devido a suas propriedades astrológicas e construído, a partir dali, uma passagem subterrânea de mais de 4 mil km. A saída desse túnel seria onde fica a Gruta do Carimbado. Diversas tentativas foram feitas por pesquisadores para desvendar o que acontece lá, mas ninguém conseguiu chegar ao fundo dela para descobrir. A gruta fica na estrada para São Bento do Abade, a 6 km do centro. Infelizmente, a entrada na gruta foi proibido pela justiça por conta da degradação causada pelos turistas.

Cachoeira das Borboletas - foto:
Cachoeira das Borboletas – foto: Adtormena

Em compensação, duas outras estão abertas à visitação. A Gruta do Labirinto e a Gruta de Sobradinho ficam no distrito de Sobradinho. Elas chegam a 150m de extensão em forma de labirinto, com alturas que variam entre 3 e 6m de altura, e centenas de cores pelas paredes de arenito. Ao lado ainda estão a Cachoeira do Sobradinho e o Bar da Gruta, que serve como ponto de apoio. Existe ainda uma lenda sobre escravos que fugiram com ouro de seus senhores e se esconderam nas grutas de São Thomé, mas que morreram de fome. A crença diz que seus corpos não se decompuseram, e estão secos, até hoje protegendo seu tesouro. Quem sabe você não acha?
Muita gente vai a São Thomé para conhecer também suas cachoeiras. São 8 ao redor da cidade. A mais bonita é a Véu de Noiva. Ela fica a 8km do centro, na estrada para Cruzília. São 20m de queda d’água, formando poços de 2m de profundidade. Por ali, é possível fazer rapel, tirolesa e cachoeirismo. As mais próximas da cidade são as cachoeiras do Flavio e da Eubiose. Ambas tem quedas pequenas, mas formam piscinas rasas que atraem famílias. Já a Cachoeira Shangri-lá fica em um córrego que desce da Serra do Pico da Gavião, e forma várias pequenas quedas e piscinas, ao longo de cerca de 1km de extensão. A trilha de acesso a ela ainda é cheia de pinturas rupestres dos ancestrais da região.
Protegida por uma trilha de dificuldade maior, a Garganta do Diabo é uma das mais bonitas da região, e também a preferida dos praticantes de rapel. O caminho até lá inclui uma trilha pesada e escalada no meio da mata. Mas o desafio vale a pena não só pela cachoeira que desce pela fenda que dá o nome ao lugar, mas por ficar a 500m do Vale das Borboletas. Esse recanto de água cristalina no meio da mata fechada foi escolhido por várias espécies de borboletas para se reproduzir, e dependendo da época, os visitantes são brindados pelo espetáculo de cores voadoras ao seu redor.
Quem não estiver em uma pegada tão radical, e preferir a segurança das ruas calçadas, pode aproveitar para conhecer as igrejas da cidade. A mais famosa é sem dúvida a Igreja da Matriz, que fica bem no meio da Praça Barão de Alfenas e do buxixo de bares e restaurantes. Construída em 1785 em estilo barroco, é uma obra do artista João José da Natividade. Ao lado ainda fica a Gruta de São Tomé, que segundo a lenda, deu origem à cidade. Mais afastada e mais curiosa, a Igreja do Rosário é conhecida como Igreja de Pedra, justamente por ser inteira construída em pedras sobrepostas. Dentro ela não tem nenhum ornamento, e ninguém sabe quando ela começou a ser construída, nem quem foi o idealizador.
Igreja de Pedra - foto:
Igreja de Pedra – foto: Cesar Gritti

Mas para conhecer o ponto turístico mais famoso de São Thomé, vai ter que por as perninhas para trabalhar. Seguindo para o alto da cidade, por ruinhas tortuosas e íngremes, chega-se à Casa da Pirâmide. Essa casinha foi abandonada no meio da construção, toda em pedra claro, e virou ponto de encontro e o mirante mais movimentado da cidade. A vista de 360º de lá de cima é espetacular, e é o melhor lugar para se apreciar o pôr-do-sol. Seguindo uns 150m para cima, o Morro do Cruzeiro é o ponto mais alto, e o melhor para ver o céu estrelado à noite, com um violão e um cobertor. Se quiser um mirante mais tranquilo para chamar de seu, você pode ainda seguir para a Pedra da Bruxa, ali perto, e depois ainda seguir por uma série de pedras altas usadas para escalada chamada de Portal dos Ventos, ou Portal O Guardião. Não tem como não achar um cantinho especial para se conectar com o cosmo por ali.

ONDE COMPRAR

Ao redor da Praça da Matriz, o que não falta é loja de souvenir. A cada esquina você encontra uma lojinha vendendo as peças mais diferentes e coloridas de artesanato. Os mais comuns, obviamente, são os objetos exotéricos, como incensários, apanhadores de sonhos, cristais energéticos, mandalas e esculturas de gnomos e fadas. Mas quem quiser uma lembrança mais prática, pode encontrar boas opções de panelas mineiras, vasos de barro, alimentos de produção artesanal e joias de prata. E como não poderia faltar, muita roupa colorida com estampa tie-dye. Afinal, o espírito hippie estará sempre firme e forte quando se falar em São Thomé das Letras.
*Foto do destaque: Flickr – Rodolfo Magalhães

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