De portas fechadas: jantar secreto persa do Amigo do Rei

Continuando nossa saga da série de jantares escondidos por São Paulo, fomos tocar na porta desse simpaticíssimo casal, Nasrin e Claudio, que comandam o Amigo do Rei. Ela veio para o Brasil “fugida” do Irã, depois dos primeiros anos da Revolução Islâmica, e foi parar nos braços dele, brasileiro de ascendência italiana. Eu já conhecia o Amigo do Rei, e tenho extremo carinho por eles. Cláudio sempre me manda emails cuidadosamente redigidos, que leio como se viessem de Pero Vaz de Caminha.

Mas dessa vez o jantar foi especial. Acabo de voltar de uma temporada no Irã, e tive muito para conversar. A culinária persa é extremamente intrigante, com sabores que não estamos acostumados: nozes, amêndoas, pistaches e outras castanhas se misturam com flores, açafrão, limão cravo, rosas, cardamomo, açafrão, alho, laranja, entre tantos sabores tão únicos. Eu brincava que no Irã a comida surpreende: o arroz tem gosto de flor, o suco tem gosto de sopa, o molho tem gosto de fruta, e a sobremesa tem um outro gosto que não era nada que você esperaria.

Foto: Jo Machado
Foto: Jo Machado

Os iranianos dividem os ingredientes em “quentes” e “frios”- e isso não tem nada a ver com a temperatura da comida. No feseenjun, por exemplo, os principais ingredientes são romã (fria) e nozes (quente). Arroz é frio, então eles sempre adicionam açafrão, cúrcuma, gengibre ou cardamomo, que são quentes. A crença tem a ver com o processo digestivo: ingredientes que aceleram ou freiam seu metabolismo. Quem cozinha sabe a classificação dos ingredientes de cor!

Nasrin, a cadbanou (cozinheira) da casa, leva ao pé da letra a tradição. É na casa deles, escondido atrás de uma portinha na Vila Mariana, e embaixo dos quadros dignos de museu de Cláudio, a única opção hoje no Brasil para se experimentar a verdadeira cozinha persa. O vinho? Leva-se de casa se quiser (afinal, no Irã hoje bebidas alcoólicas são proibidas), e o Cláudio ainda dá uma mão e sempre sugere: “na dúvida, vá de Primitivo!”.

20170616_203513
Sekahnjebin – Foto: Jo Machado

Eles fazem dois tipos de menu, um mais enxuto com entrada, prato principal e sobremesa, e outro “Jantar do Rei”, um menu degustação em 6 tempos. Dessa vez fomos só de “Jantar Persa”. Após os abraços e bate papo com a família, regado a uma água deliciosa com flor de laranjeira, o primeiro prato: uma sopa de pistaches. Nesta sopa são usados 10 ingredientes, dentre os quais, além do pistache iraniano, um caldo caseiro de galinha criada sem hormônios e antibióticos e a chalota (aquela cebola pequenininha). Já havia experimentado antes a sopa de romã, e confesso que não consigo decidir quais das duas é minha favorita. Acho que se pudesse faria apenas um menu degustação de sopas iranianas!

20170616_212732
Feseenjun – Foto: Jo Machado

Duas opções para o prato principal, e fui de feseenjun: bolinhas de carne com romã (lembra que é “fria”) com nozes (“quente”) – os sabores são bastante diferentes do que a almôndega que nossa mãe faz em casa. O arroz de açafrão verdadeiro e o molhinho de iogurte e alho são os acompanhantes especiais do prato. Servido com colher, claro, pois assim que se faz na terrinha. A outra opção era o khoresh-e gheimeh, um guisado de filet mignon, com especiarias do mais alto nível, incluindo lapeh, um tipo especial de ervilha iraniana amarela. Para acompanhar, o sabor fica por um  limão persa desidratado, o limú amaní.

20170616_210645
A deliciosa sopa de Pistache – Foto: Jo Machado

As sobremesas são simplesmente impossíveis de descrever. O ranghinak é uma receita da família de Nasrin – tâmaras recheadas com nozes envoltas em um creme arenoso com uma textura diferente de tudo que já comi. Por cima, pistache picado. A outra opção era uma geléia de marmelo, servida com um creme suave para quebrar a doçura. Mas o melhor tempero de todos os pratos é mesmo ouvir todas as histórias inacreditáveis que eles viveram. Ouvir a Nasrin contar sobre o Irã secular e moderno pré-revolução é suficiente para acabar com tudo que sempre aprendemos sobre o país.

20170616_220106
Uma sobremesa de comer de joelhos – Foto: Jo Machado

O casal tinha um restaurante chamado Amigo do Rei em Paraty, e depois em BH. Agora a experiência é para poucos – até 8 comensais, que recebem na sala de jantar deles. O jantar persa custa R$ 85 e o menu degustação R$ 150. Aqui tem todas as instruções em como reservar. A Nasrin também cozinha na residência. E eles estão sempre abertos a conversar sobre eventos! Estômagos curiosos e mentes abertas ficarão encantados com essa experiência única. Se for lá, manda um abraço nosso com saudades!

2 thoughts on “De portas fechadas: jantar secreto persa do Amigo do Rei

  1. A comida iraniana é a mais saborosa que já experimentei!

    Não imaginava que a Chef Nasrin e seu cuidadoso é fiel escudeiro (Cláudio) pudessem me proporcionar uma experiência tão sensorial e incrível, regada à muita simpatia, em ambiente aconchegante e exclusivo.

    Recomendo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *