Roteiro de projetos de Paulo Mendes da Rocha em São Paulo

Nem todo cinza de São Paulo é triste. A cidade foi o caldeirão de uma das escolas mais importantes da arquitetura brasileira, a brutalista. Com nomes fortes como Lina Bo Bardi e Vilanova Artigas, o movimento buscou a poesia dura do concreto. Mas o maior expoente do brutalismo paulista acaba de entrar também para o seletíssimo grupo de um dos maiores arquitetos do mundo. Na semana passada, Paulo Mendes da Rocha recebeu a medalha de ouro do Royal Institute of British Architects, honraria que receberam também Le Corbusier e Frank Lloyd Wright. Esse prêmio só vem a se somar a tantos outros como o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, o Praemium Imperiale japonês e o Prêmio Pritzker, considerado o Oscar da arquitetura.

Mas diferentemente de seus colegas premiados, Paulo Mendes foge dos holofotes e do modus operandi dos starchitects. Trabalha até hoje (tem 88 anos) quase sozinho em seu pequeno escritório no prédio do IAB, no Centro. De lá, há mais de 60 anos saem algumas das criações mais emblemáticas da nossa cidade, e que continuam de pé, como registro da beleza que só São Paulo sabe encontrar no concreto. Para quem não conhece o trabalho desse grande mestre, montei um roteiro com algumas das obras mais importantes. Muitas dá para visitar por dentro, mas algumas não tem jeito, só dá para admirar da rua mesmo.

1. Club Athlético Paulistano

Paulo Mendes da Rocha - Paulistano - foto: Brutalist Connections
Paulo Mendes da Rocha – Paulistano – foto: Brutalist Connections

Seu primeiro projeto a ganhar a atenção internacional, o enorme ginásio se apoia levemente sobre 6 finas lâminas triangulares dando a impressão que um disco voador de concreto pousou em pleno verde dos Jardins. Infelizmente, com o tempo, o ginásio recebeu paredes que vedam justamente o vão que ligava o espaço externo às arquibancadas.

Club Athlético Paulistano (1957)
Endereço: Rua Honduras, 1400 – Jardim América
Entrada: apenas para sócios e convidados

2. Edifício Guaimbê

Paulo Mendes da Rocha - Edifício Guaimbê - foto: Flick - rodrigo.abbade
Paulo Mendes da Rocha – Edifício Guaimbê – foto: Flick – rodrigo.abbade

Um prédio inteiro feito de concreto, espremido entre os muitos do bairro, mas que se destaca na paisagem por seu material incomum e sua fachada trabalhada com brises curvos e floreiras. São 13 andares com os mesmo elementos arquitetônicos, fazendo do Edifício Guaimbê um dos mais interessantes dos Jardins.

Edifício Guaimbê (1962)
Endereço: Rua Haddock Lobo, 1447 – Cerqueira César
Entrada: apenas para moradores

3. MuBE

Paulo Mendes da Rocha - Mube - foto: Renato Salles
Paulo Mendes da Rocha – Mube – foto: Renato Salles

Vizinho calmo do agitado MIS, é impossível passar pelo Museu Brasileiro da Escultura e não ser atraído pela impressionante viga de concreto protendido com mais de 60m de comprimento que flutua sobre a calçada. A genialidade do projeto está justamente em jogar todos os equipamentos do museu para o subsolo, e tratar o terreno como um grande jardim de esculturas, convidando o visitante ao passeio e à contemplação mesmo antes de entrar.

MuBE (1995)
Endereço: Av. Europa, 218 – Jardim Europa
Entrada: terça a domingo, das 10h30 às 18h. 

4. Remodelação da Praça do Patriarca

Praça do Patriarca, São Paulo, Brazil from Pedro Kok on Vimeo.

Cheia de controvérsia, essa grande asa metálica branca pousa tranquilamente sobre a Praça do Patriarca, e protege a entrada da Galeria Prestes Maia, que tem obras de arte do MASP. A favor do projeto pesa o fato de o trânsito (principalmente de ônibus) ter sido tirado da praça, que voltou a ter vida. Contra estão os defensores do Patrimônio Histórico de São Paulo, já que o pórtico cobre parcialmente a fachada da Igreja de Santo Antônio, a mais antiga da cidade, do século 16.

Marquise da Praça do Patriarca (2000)
Endereço: Praça do Patriarca, no fim do Viaduto do Chá

Entrada: Livre

5. Casa Gerassi

Paulo Mendes da Rocha - Casa Gerassi - foto: Igor Fracalossi (Archdaily)
Paulo Mendes da Rocha – Casa Gerassi – foto: Igor Fracalossi (Archdaily)

O projeto dessa casa foi desenvolvido para a família de um engenheiro, e trouxe uma grande inovação no sistema construtivo para a época. Ela foi toda construída em estrutura de concreto pré-moldado, sistema usado até então só para construções populares e grandes obras públicas. O resultado é uma casa inteira suspensa, com o vão do térreo de mais de 15m totalmente livre, utilizado apenas para garagem e espaço de lazer. Os únicos pontos de contato com o chão são os pilares delgados e a escada de acesso.

Casa Gerassi (1989)
Endereço: Rua Dr. Carlos Norberto de Souza Aranha, 409 – Alto de Pinheiros

6. Centro Cultural FIESP

Paulo Mendes da Rocha - Centro Cultural FIESP Ruth Cardoso - foto: Nelson Kon
Paulo Mendes da Rocha – Centro Cultural FIESP Ruth Cardoso – foto: Nelson Kon

Quando recebeu o projeto de remodelação do térreo da FIESP, Paulo Mendes prontamente foi até o escritório Rino Levi Associados (autor do projeto do prédio) para discutir suas ideias e ter certeza que não descaracterizaria o original. Sua proposta foi super bem aceita, e só então ele prosseguiu. O resultado final ocupou o vão livre com o Centro Cultural FIESP Ruth Cardoso, integrado à recepção, acesso aos elevadores e ao passeio público. O projeto ainda permitiu a permeabilidade da quadra, ligando a Av. Paulista à Alameda Santos.

Centro Cultural FIESP Ruth Cardoso (1998)
Endereço: Av. Paulista, 1313 – Cerqueira Cesar
Entrada: de quarta a sábado, das 13h às 21h / domingo, das 10h às 19h30

7. Casa do arquiteto

Casa de Arquiteto – Paulo Mendes da Rocha from Habitar on Vimeo.

Antes de projetar a casa Gerassi, Paulo Mendes tinha feito de sua própria casa, no Butantã, um grande estudo de racionalização da arquitetura. Estrutura simples, com apenas 4 pilares e 2 vigas mestras para sustentar toda a construção, janelas modulares que se espalham por todas as fachadas, o mobiliário integrado à arquitetura, o uso intenso de iluminação natural. Isso tudo mantendo foco em atender suas necessidades mais pessoais, em contraposição com a industrialização do Estilo Internacional dos modernistas.

Casa do arquiteto (1964)
Endereço: Praça Monteiro Lobato x Rua Eng. João Cintra – Butantã

8. Galeria Vermelho

Paulo Mendes da Rocha - Galeria Vermelho - foto: Divulgação - Ana Maria Tavares
Paulo Mendes da Rocha – Galeria Vermelho – foto: Divulgação – Ana Maria Tavares

Nesse projeto desenvolvido em duas fases, junto com o escritório Piratininga Arquitetos Associados, três casinhas geminadas no fundo de uma vila foram integradas para formar um grande espaço expositivo interno e outro externo. A maioria das aberturas foram fechadas, priorizando ao máximo a iluminação artificial e as superfícies brancas na parte de dentro. Isso ofereceu uma grande flexibilidade para a Galeria Vermelho, que promove os mais diferentes tipos de exposição.

Galeria Vermelho (2003 e 2007)
Endereço: Rua Minas Gerais, 350 
Entrada: de terça a sexta, das 10h às 19h / sábado, das 11h às 17h.

9. Museu da Língua Portuguesa

Paulo Mendes da Rocha - Museu da Língua Portuguesa - foto: Governo de São Paulo
Paulo Mendes da Rocha – Museu da Língua Portuguesa – foto: Governo de São Paulo

A Estação da Luz é um dos edifícios de maior importância histórica e arquitetônica para a cidade, mas com o crescimento de São Paulo, seu uso acabou restrito. Assim, Paulo Mendes teve o desafio de adequar os muitos espaços de uso administrativo abandonados em um museu quase totalmente interativo, sem acervo, e ainda manter a livre circulação dos passageiros do sistema de trens metropolitanos. A solução apresentada formou um pórtico cultural sobre o saguão da estação. Lamentavelmente, um incêndio em 2015 consumiu boa parte dos espaços do museu, que se encontra em reforma, mas sem data para reinaugurar.

Museu da Língua Portuguesa (2006)
Endereço: Estação da Luz – Luz
Entrada: fechado para reformas

10. Edifício Jaraguá

Paulo Mendes da Rocha - Edifício Jaraguá - foto: Prédios de São Paulo
Paulo Mendes da Rocha – Edifício Jaraguá – foto: Prédios de São Paulo

Outro prédio que chama a atenção da paisagem de São Paulo é o Edifício Jaraguá. Apesar de ficar no fim de uma rua tranquila, suas fachadas de vidro e concreto se destacam no skyline de quem passa ao longe, desde das marginais. O projeto bem racional forma um bloco que intercala as lajes e os panos de janelas, que só são interrompidos de um lado por um rasgo usado como área técnica, e do outro por um interessante desnível que rebaixa uma pequena área dos 8 apartamentos do prédio.

Edifício Jaraguá (1988)
Endereço: Rua Herculano, 420 – Pompéia
Entrada: apenas para moradores

11. Aesop

Paulo Mendes da Rocha - Aesop - foto: Leonardo Finotti - Archdaily
Paulo Mendes da Rocha – Aesop – foto: Leonardo Finotti – Archdaily

A marca australiana de cosméticos Aesop chegou recentemente ao Brasil, e para sua primeira loja no país chamou Paulo Mendes, junto com o escritório Metro Arquitetos Associados. As lojas da marca são deslumbrantes em todo o mundo, e por aqui não poderia ser diferente. A unidade de São Paulo se aproveitou da fachada dupla, para a rua e para uma galeria, para manter a fluidez e a transparência, marcados no vão central por uma bancada de concreto que contrapõe o peso do material com suas formas orgânicas.

Aesop São Paulo (2015)
Endereço: Rua Oscar Freire, 540 – Cerqueira Cesar
Entrada: de segunda a sexta, das 10h às 20h / sábado, das 10h às 18h / domingo, das 12h às 18h

12. Poupatempo Itaquera

Paulo Mendes da Rocha - Poupatempo Itaquera - foto: Daniel Souza Lima
Paulo Mendes da Rocha – Poupatempo Itaquera – foto: Daniel Souza Lima

A ideia inicial da Prodesp era construir o novo Poupatempo em Itaquera em um terreno isolado. Mas Paulo Mendes foi categórico: queria que o prédio fosse diretamente vinculado à estação intermodal do bairro, para facilitar o acesso aos mais de 200 mil passageiros diários do sistema. Dito e feito. O projeto (feito em parceria com o escritório MMBB) com mais de 300m de comprimento só pode ser acessado por uma passarela que o liga à estação, já que ele fica elevado do solo por pilotis. Hoje tem capacidade para atender até 12 mil pessoas em um único dia.

Poupatempo Itaquera (1998)
Endereço: Av. do Contorno, 60 – Itaquera
Entrada: de segunda a sexta, das 7h às 19h / sábado, das 7h às 13h.

13. Pinacoteca do Estado

Paulo Mendes da Rocha - Pinacoteca - foto: Nelson Kon - Archdaily
Paulo Mendes da Rocha – Pinacoteca – foto: Nelson Kon – Archdaily

O mais conhecido projeto do mestre paulistano é com certeza a reforma da Pinacoteca do Estado. O projeto original, de Ramos de Azevedo, foi feito para abrigar o Liceu de Artes de Ofício, ainda no século 19. Com o tempo, foi mudando de uso, e sofrendo as mais diferentes e absurdas reformas. Só nos anos 90, finalmente, o prédio foi requalificado para abrigar o importante acervo e as exposições temporárias da Pinacoteca do Estado de São Paulo. O grande trunfo do projeto foi a inversão da implantação, trazendo a entrada para a rua lateral, tirando-a da movimentada Av. Tiradentes. Isso só foi possível com a reorganização da circulação através das passarelas que cruzam os vãos centrais elegantemente, sem interferir na arquitetura original.

Pinacoteca do Estado (1998)
Endereço: Praça da Luz, 2 – Luz
Entrada: de quarta a segunda, das 10h às 17h30.

*Foto do destaque: Paulo Mendes da Rocha por Luiza Sigulem (CAU-BR)

Renato Salles

Paulistano da gema e da clara, conhece o mapa de São Paulo melhor que muito taxista (mas foge do trânsito como da cruz!)

12 thoughts on “Roteiro de projetos de Paulo Mendes da Rocha em São Paulo

  1. Discordo totalmente de dois comentários:

    Ginásio do Club Athlético Paulistano: um projeto deve servir para a utilização à qual se destina. O ginásio, com os vãos livres do projeto original permitia a ação do vento, prejudicando os esportes lá praticados. A solução de fechar ficou feia; já há estudos em andamento para resolver, de forma adequada.

    Praça do Patriarca: o projeto implantado não deu nenhuma vida à Praça, muito pelo contrário! Basta fazer uma visita ao local para verificar…fecharam todas as atividades comerciais: Casa Fretin, Camisaria Colombo, Itaú-Unibanco e o Othon Hotel…o “chapéu” da Galeria Prestes Maia virou um dormitório de mendigos, a Galeria morreu e o cheiro no local é insuportável! Esse projeto foi desastroso pro local!

    1. Sergio, no caso da Praça do Patriarca, eu concordo com você que a Galeria acabou sumindo, e também lamento. Não sei até que ponto o comércio fechou ali por conta da cobertura, mas acho que a praça tinha virado apenas um grande ponto de ônibus. Na época da inauguração, lembro de muita discussão em torno da requalificação, e acho que ela teve um efeito apenas parcial (não se pode ganhar todas).
      Sobre o ginásio do clube, infelizmente nunca tive a oportunidade de visitar, e não tenho informações sobre o que se planeja fazer. Mas mantenho meu ponto que as paredes construídas desconfiguraram o projeto original, que perdeu bastante força. Espero que a nova reforma recupere a beleza projetual inicial.
      Obrigado pelos comentários! Gosto quando temos oportunidade de debater ideias! 😉

  2. Belo roteiro. Não seria interessante incluir a Loja da Forma? Mesmo que tenha sido alterada pelos novos usuário, o projeto original que perdurou por muitos anos é de conceito ímpar.
    Sugiro aceitar o convite do Sérgio Belezza para visitar o ginásio do Paulistano. O Projeto original é emocionante, porém sofreu alteração grave na execução com elevação de cota de implantação.
    Sérgio me avise e quem sabe me encontro com voces.
    Abç
    Silvio

    1. Olá Silvio,
      Confesso que esqueci da loja da Forma. Hoje ela é da C.O.D, que vende mais ou menos as mesmas coisas, mas não sei em que estado está o espaço. Não visito há muito tempo.
      Vou gostar muito dessa visita ao ginásio com vocês.
      Abs,
      Renato

    1. Margareth,
      Realmente eu não conhecia esse projeto, muito interessante. É uma pena que tem tantos projetos bacanas que são tão negligenciados que mal aparecem nas listas. Antes de incluí-lo, vou ver se consigo eu mesmo visitar para ver ao vivo.
      Obrigado pela lembrança!
      Abs,
      Renato

  3. Parabéns pelo roteiro, muito bom.
    Faltou a Residência Mario Masetti de 1968 que fica na rua Manuel Maria Tourinho 701 no Pacaembu.
    Já tentei visitar essa residência mas não consegui.

    Abraços

    Zeca

  4. Interessante roteiro e ele merece ser complementado. As “casas gemeas” merecem destaque, entre outras!
    Gostei!
    Abraço.
    Antonio Gerassi

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